fase II

como a sequencia da parte um seguiu violenta, mal consegui escrever meu nome ou assinar ponto no trabalho. não sabia o que dizer. as coisas externas foram me bombardeando como a um inimigo, eu me fiz de goleira, ginasta, psicóloga, mas sucumbi ao desejo do outro de me ver mal.

abusei de remédios e omiti fatos na análise, até que ela, a analista, me perguntou porque eu estava querendo tanto ser espancada: culpa, eu acho. de quê? não sei.

a maldade alheia me comove por não ter fundamento. nietzsche já dizia “Efetivamente, cada um que sofre procura instintivamente a causa da dor, e procura uma causa animada, uma causa responsável, susceptível de sofrer, um ser vivo contra o qual possa, ao menos em efígie, descarregar a sua paixão. Para arrancar a dor, embora momentaneamente, é necessária uma paixão, uma paixão das mais selvagens, e um pretexto para a excitar. “Alguém deve ser a causa do meu mal-estar”.

“Os doentes têm grande engenho para descobrir as causas ou pretextos da sua dor; gozam de suas suspeitas, devaneiam os miolos acerca de injúrias de que julgam ter sido vítimas, abrem suas antigas feridas, perdem sangue pelas cicatrizes há muito tempo saradas, fazem sofrer os amigos, mulher, os filhos, todos os seus próximos. “Eu sofro, alguém tem culpa” e então o sacerdote ascético responde-lhes: é verdade, alguém tem culpa; mas é tu mesma; tu mesma é a causa do teu mal”.”isso é muito atrevido, mas obtem um fim: mudar a direção do ressentimento.”

assumi minha culpa no caos e abri mais ainda o meu mundo na análise. falei dos temores, expressei a raiva, quase me engoli tentando cuspir outro. precisei que me buscassem, que me dessem comida, que ficassem ao meu lado e não me expusessem, algo dificil no mundo de hoje. decidi assumir quem eu sou, tirando o dior anos 50 e parando de ser adequada. eu sou adequada a mim. pelo menos estou no caminho para isso.

algo interessante, foi ter minha mãe na análise. entenda, se você vai precisar do outro pra atravessar a ponte, ache um mediador para esse diálogo a fim de você atravessar a sua ponte e não a que o outro considera correta. a única pessoa que importa é você. e eu me basto assim para o outro, desde que esteja bem comigo. o bem espalha sozinho. o passo é seu, o outro é um braço firme pras horas que as coisas desorganizarem, se tornarem maiores que você. dividir é importante.

então me socaram por meses e eu não conseguia sair da situação. orgulho e raiva. e explodi. nesse dia, me levaram para casa dormindo e só acordei às 16h do sábado. meu café da manhã de domingo foi na analista, que me colocou na seção do risco. eu estava moida.

me propôs afastamento e normalidade para que eu retomasse meu eu, que estava solto por aí, a mercê do entretenimento alheio. fui ao psiquiatra. ele concordou. recaí na mão do outro, dessa vez foi feio e eu senti em cada parte do corpo. eu não queria mais estar e tentei não estar, tive crise de raiva. muita raiva. porque o outro podia andar livre e despreocupado e eu tendo que abrir mão de tanto para talvez ficar bem? em pouco tempo, perdi o controle, perdi a ternura e ausente de mim comecei a enxergar os absurdos. retornei ao médico depois de uma nova crise. analista. psiquiatra. falamos de spinoza e de exposição que, ironicamente, detesto. mudei a medicação inteira que, nesse momento me enjoa e dói meu estômago. acelerei a mudança da casa, joguei dama com minha família e tento ler, quando a concentração permite.

hoje entrei na fase dois da medicação. dose aumenta. secura pura nos lábios, gosto metálico, promessas de cura. uma semana afastada do trabalho e a certeza de que eu ainda não sei ficar em paz. agitação, multitask, dores, cólicas. prometi para mim não me retomar, mas reerguer, desmanchar em água, não em asfalto. assumir o que é meu, inclusive as consequências. de resto, nada me importa.

o eco do eu e a cultura do bla bla bla

Ei sei que, numa época de selfies e autobiografias, é difícil acreditar que algo expressado não se refere biograficamente à vida do autor, mas é preciso olhar pra dentro com carinho e saber que dá sim para manter um diálogo relevante sem precisar falar de si ou do outro. Uma conversa sem “eu” em destaque. Já imaginou?

Alguns amigos questionam que em certos segmentos, essa vaidade de falar de si, mesmo que seja para reclamar da vida, é mais marcanta; porém, passeando por universos distintos, eu sinto mais e mais que isso não é do segmento, mas do ser humano desta sociedade (somos socialmente mutáveis, nos adequamos com facilidade se estimulados a isso). Um exemplo que vivi: apresentei um problema de ordem prática, que preciso resolver em poucos meses a uma pessoa querida, solicitando sua ajuda. Sua resposta não foi a negação ou aceitação do meu pedido, mas me dizer o que ela queria após solucionar o meu problema. Então, mesmo eu repetindo o meu pedido e ela acatando, eu sei que não, não vou poder contar com sua ajuda porque o olhar dela está posterior ao lugar aonde eu preciso dela. Olhos dela estão no que ela quer para ela.

Outro exemplo, procuro amigos para sair, conversar, ir a praia. Estão ocupados. Quando surge uma problemática na vida deles, onde eu sou um fio condutor para a solução, surgem buscas ao meu número para encontros a fim de falar do quê? Deles. Mas, se são meus amigos, porque a necessidade de ter assunto pre-estabelecidos? Que tipo de amizada é fundamentada na relação de uso? Que tipo de pessoa fundamenta suas relações na base da utilidade?

Enquanto não entenderem que é saudavel discordar, que é saudável ficar triste, que é saudável não ter assunto e que é saudável o silêncio a dois, todos viverão nessa ansiedade de busca por assunto, utilidade ou qualquer coisa que justifique um contato que, para mim, está por si só justificado no amor e no interesse pelo bem do outro.

Falar, conversar. O mundo é múltiplo. Assuntos transbordam. Os estímulos a novos debates surgem diariamente. Para que falar tanto de mim, se o que eu vou dizer é basicamente o mesmo que você? Que acho que deveria viajar mais, viver mais, fazer mais. Para que fazer de mim ouvinte das suas lamúrias ou condutora do seu sucesso se a amizade é troca, mas o seu discurso aponta para o umbigo?

Sim, irônico que um texto que propõe a ausência de pronomes esteja lotados deles. Mas é preciso se mover. Olhar lugares bonitos sem pegar a câmera. Desmontar o frame quadrado que colocamos nos nossos olhos, redescobrir a própria ortografia, se enxergar em estado mais orgânico para que, leve dos próprios propósitos e desejos, a gente consiga levar os olhos para os outros e descobrir nessa ponte invisível que nos conecta, novos limites, antes concretos por essa ideia de ser um eu fechado, estabelecido, imutável, indelicado e falante.

fase 1

difícil me dividir entre dois diários; esse e o pessoal, que guardo só pra mim. mas passei as últimas semanas em refluxo de vida. ao mesmo tempo em que tentava, como um elástico, esticar os meus limites, fui lembrada a cada segundo que os passos devem ser curtos, senão o elástico pode arrebentar. tive que aumentar a dose do meu remédio. entenda, eu tenho repulsa a remédio. já fiz mal uso dos mesmos por escapismos de uma fase triste, tenho exemplos de abusos que dopam a pessoa e cresci num ambiente onde tudo sempre foi remediado, ao invés de resolvido.

a primeira vez que fui a um psiquiatra, ele me dopou com 20mg de um antidepressivo que não lembro agora. entrei no consultório, sala de espera lotada. quando fui atendida, ele mal ouviu a minha história. assinou a receita e mandou marcar a data de retorno. hoje, com o sistema de apoio bem definido, eu sei que se ele tivesse noção de que estava tratando de vidas que, acima de tudo, queriam ser melhores, ele teria ao menos perguntado quem eu sou e me dado seu celular para casos de emergência, e eu vivi um monte deles.

eu era bem nova naquela época, uns 23/24 anos. era a mais velha do meu relacionamento mais longo e era a mais viva nos ambientes alegres e também a mais triste. soa confuso, mas foi confuso assim minha vida inteira, a ponto de, na adolescência, meu irmão falar pros amigos irem ver no quarto o quanto eu era estranha por estar sentada na cama desenhando ou lendo livros, ao invés de bebendo e fumando cigarros. meu relacionamento pedia muito de mim e eu já sou um bocado exigente. aprendi na terapia que eu sou exigente. nunca tinha pensado nisso. mas pela pouca idade da outra parte, eu me cobrava pensar por dois ao mesmo tempo que ainda queria alcançar todos os meus objetivos que pre-existiam à qualquer pessoa.

aos poucos, toda a alegria e o amor do início do relacionamento foi sendo trocado por uma cobrança de que eu estivesse sempre alegre, como seu não pudesse ter minha parte triste, como se um pouco de quietude fosse sinal de algo errado. e havia muito esforço pra que eu me movesse de qualquer lugar ruim onde estivesse, mas cada vez que eu era puxada, me afundava, porque nunca me senti sendo puxada pra que eu ficasse bem, mas para que pudesse atender as expectativas dos outros. sentia explosões de alivios em todo lugar pouco familiar. o trabalho virou meu foco. eu não tinha desejo sexual algum, vontade alguma de sair de casa, não queria nada além de ambientes onde me sentisse segura e eu não sabia o que tinha.

depois que fui nesse primeiro psiquiatra, as coisas pioraram. mal medicada, eu mal conseguia me mexer na rua. tudo turvo, distante, lento. aquele vazio que ganha forma, a sensação de não estar acompanhando a temporalidade do mundo. eu ouvia que era assim mesmo, daqui a pouco passa. mas mesmo depois de parar de me medicar por conta própria, demorou anos pra passar. ainda assim, precisei de uma explosão violenta de identidade, de vazio, pra que cavasse com as unhas o fundo do poço e me desfizesse de tudo que era conhecido para enfim tentar saber quem eu era, bem distante dos olhos dos outros. ali, eu tinha chão, me cheio de cacos, onde quer que eu pisasse iria me cortar, e foram esses cortes que me doeram e que me lembraram que eu ainda sentia e sentia muito.

pouco antes dessa crise, que descrevo melhor mais a frente, uma amiga querida se matou. e. jornalista, eu trabalhava vendo muitas pessoas mortas ou sofrendo. a morte dela é latente em mim até hoje. volta e meia, quando me pego realmente pra baixo, lembro dela e de um sonho que tive em que sei que me despedi dela, da forma mais bonita que nossas energias conseguiam naquele momento. por ela, eu rezei. e rezei por mim também porque, ao não saber aonde estava indo, deixei meu corpo solto numa avalanche que era a minha cabeça e os estímulos que recebia ecoados do mundo e sacudia sem direção, caindo, levantando, tropeçando, desviando, buscando alças e corrimões pra me manter em pé, sem saber pra que ficar em pé  e não sabendo quem eu era.

a minha depressão é sintomática, hoje eu sei. como zilhões de pessoas, eu sofro um transtorno severo de ansiedade, que consigo identificar picos desde as primeiras lembranças da infância. já quis viver muito, já quis morrer, mas hoje, ouvindo as pessoas falando em tom jocoso sobre tudo e todos que se mostram diferentes e aceitando esse humor às custas do outro como algo que faz parte, eu me sinto mais disposta a falar, mesmo que eu tenha que dividir que estou vivendo uma das fases mais infernais da minha vida, e, por isso, tão igualmente incrível, mas eu estou disposta a falar que meu coração palpita. volta e meia eu acho que vou infartar. ligo pros meus médicos com sintomas e sugerindo diagnósticos burros, porém eu nunca escolheria ser diferente de mim. essa estranheza que me cerca, esse humor mal revelado que parece turvo aos olhos dos outros, são parte da minha essência. e eu prefiro ser doente por sentir demais do que não sentir nada e achar normal.

mas isso ficará mais bem explicado daqui pra frente. hoje eu só escrevi. sou péssima com planejamentos, mas tentarei estruturar um caminho pra contar a minha história e falar do meu dia a dia, enquanto trato de mais uma crise depressiva, totalmente mais ciente do que sinto, do que da primeira vez que passei oficialmente por isso, no começo dos meus 20 anos.

fase 1

sair da cama foi difícil. respondi o email dela e levantei com o coração aflito. às vezes ele palpita (muitas vezes). já achei que ia sofre um ataque do coração, mas era meu corpo atacando meu coração, dizendo: segura essa cortisona toda porque o cérebro sozinho não processa, não flui. põe a mão no peito. pressiona. jura seguir em frente pensando passo a passo. desce do ônibus. abordada por um estranho. tenta ajudar, querendo que ele cale a boca. pega o segundo ônibus. pensa no passo. toma remédio para aliviar. chega e tenta. trabalha. erra. acerta. tenta. está. numb numb numb. o medicamente me distancia. ele disse que é proposital. pra eu me blindar do que é externo e diminuir o que é interno. mas ontem eu desci e subi escadas com um medo palpável de ficar louca. a boca está seca, meus olhos sonolentos. tenho um turbilhão dentro de mim e os passos de uma tartaruga. transformar o turbilhão em energia boa. tornar a lerdeza da tartaruga em delicadeza comigo. respirar sem pressão, sem cobrança. desatar nós. o meu duplo. umedeço os lábios com a língua também seca. sou doce, sou frágil, exigente teimosa. tenho festa da firma mais tarde. a vontade é de sumir no travesseiro em qualquer programa de tv. mas vou e fico a cada passo. qualquer coisa, tenho o dinheiro do táxi no bolso e a garrafa d’agua por perto.